Meios digitais. Informação ou formação?

23 Sep

As métricas nos desafiam. Participar de redes sociais colabora com a nossa boa escrita? Ou ainda, estimula a alfabetização de uma criança ou não? Uma plataforma digital com cada vez mais usuários, inúmeras discussões, enriquece a nossa maneira de escrever em que sentido? São muitas as perguntas e poucas as respostas. Como é para tudo o que envolve o tema vida digital.

Tomemos este exemplo: uma pessoa com 1.473.851 seguidores* no Twitter como o jornalista William Bonner, que tem quase 7 mil posts* publicados, já escreveu quase um milhão de caracteres. Se compararmos esse número ao de toques de um livro com 200 páginas, 40 linhas por página, teremos aproximadamente 360 mil caracteres escritos. Ou seja, é possível dizer que o William Bonner já publicou uma quantidade de palavras equivalente a 3 livros. Isso falando em um nome que nem é o top list de tweets no microblog. Uma rápida análise que mostra que estamos escrevendo muito, lendo muito, ainda que os puristas critiquem a geração atual, notadamente de brasileiros, pelo pouco interesse com a leitura.

A discussão que coloco é com que qualidade estamos lendo e escrevendo. Informação versus formação. O fato de vivermos todos imersos em um universo online, digitando, blogando, clicando todos os dias, pode não significar necessariamente que estamos elevando nosso nível intelectual. Na minissérie da Rede Globo de 2008, Capitu, vimos a primeira demonstração de força do suporte digital para a audiência televisiva. Mesmo para um público jovem, não tão interessado em literatura. O hotsite da campanha convidando as pessoas a gravarem seus vídeos lendo a obra de Machado de Assis, fez um enorme sucesso e ajudou a emissora a alcançar números significativos de audiência, além de faturar um prêmio no Festival de Cannes. Fica a pergunta: passada a ação promocional, para onde foi esse público? Foi mesmo descobrir o universo de Machado de Assis? Fato é que a informação digital ainda é muito superficial de maneira geral. Não tem compromisso com a escrita de alto nível. E quando digo de alto nível não estou me referindo à norma culta aplicada e sim dizendo que ela foi criada para ser fugaz. O conceito central do mundo digital é o dinamismo, prender a atencão por pouco tempo e no minuto seguinte já sugerir outro foco de atencão.

Faça o teste: coloque um adolescente de 15 anos pendurado diariamente nas redes sociais ao lado de um outro que lê livros com frequencia. E podem ser e-books. A diferença será clara em termos de repertório. Muito se fala do que será das mídias tradicionais perante a avalanche digital que estamos vivendo. Só que o buraco é mais em baixo. Não é avaliar se o digital vai substituir o impresso ou se vão competir de igual para igual. O ponto é a qualidade e relevância do conteúdo que se disponibiliza online. Ok, você pode criar posts com a inteligência de Millor Fernandes, construir intrigas virtuais como Rubem Fonseca o faria, mas não me venha dizer que isso veio assim, meio sem querer, sem ter lido a nata da nata. Juro que não vou acreditar.

* Dados de 18/05/2011

Por Cintya A Nunes

Escrevinhadora de ideias há 37 anos, redatora há 15, contadora de histórias há 2 e ficcionista disfarçada desde sempre. Trabalha atuamente como Supervisora de Criação na MRM WorldWide, do Grupo WMcCann. Contatos: Twitter: @cinunes – Facebook: www.facebook.com/cintyanunes – LinkedIn: www.linked.com/cintyaanunes



7 Comentários to “Meios digitais. Informação ou formação?”

  1. Marco September 23, 2011 at 2:09 pm #

    Muito bom esse tema e ainda lembrar que produção de conteúdo sem embasamento e relevância leva a uma discussão vazia, seja qual for o meio.

  2. Ernesto Diniz September 23, 2011 at 2:10 pm #

    É nesses momento que o livro “Por que ler os clássicos?” do Ítalo Calvino deve ser conjurado. O buzz das mídias sociais se confunde demais com o ruído das mídias sociais. Participar é livre, influenciar é formação continuada. Apenas ler os clássicos também não garante o bom conteúdo ou a relevância, mas, com certeza, é peça-chave de uma formação sólida. E não APENAS ler os clássicos, ler TAMBÉM os clássicos, quadrinhos, literaturas minoritarizadas e, a partir disso, desenvolver o que falta bastante no mercado: uma visão crítica aguçada e transdisciplinar.

    • cintyanunes September 23, 2011 at 3:34 pm #

      Ernesto, obrigada pela leitura em primeiro lugar. Acho super bem vinda sua colocação, concordo. O lance é este mesmo, a “chapação” que as pessoas ficam em cima do digital, esquecendo de alimentar outros lados também. Abraços, Cintya

  3. Flavio Ferrari September 29, 2011 at 9:25 am #

    Cintya: discussão pertinente e atual, principalmenente num país onde apenas 1/4 da população tem condição plena de leitura e escrita (veja http://www.ipm.org.br/ipmb_pagina.php?mpg=4.02.04.00.00&ver=por).
    Zygmunt Bauman, o sociólogo polonês que escreveu a série de livros sobre a “liquidez” das relações, é leitura obrigatória para compreensão do fenômeno social da superficialidade.
    Por outro lado, da mesma forma como a Televisão foi apontada (talvez indevidamente) como responsável pelo distanciamento da leitura, a Internet vem gerando a reversão desse fenômeno já que a interface principal é, prioritariamente, escrita.
    A discussão, portanto, é rica e ampla. Vale uma série de happy hours com direito a posts em real time nos micro blogs … rs

    • Cintya October 10, 2011 at 10:32 am #

      Flavio, bacana o ponto que você levantou. E realmente daria uma centena de happys porque ha muitos aspectos dentro de uma mesma questão. E por que não também diversos posts com CONTEÚDO, assim como o seu. 😉 Obrigada pela leitura! Abraços, Cintya

  4. leandro September 29, 2011 at 2:27 pm #

    “O fato de vivermos todos imersos em um universo online, digitando, blogando, clicando todos os dias, pode não significar necessariamente que estamos elevando nosso nível intelectual”.

    Concordo plenamente e na minha opinião:

    “Imprensa da boa”, nunca bebeu e nunca beberá da fonte da web.

    Cyntia o que aconteceu com o Léxico? o que aconteceu com nossa riqueza e acervo da nossa língua?

    O SEO matou o Léxico?

    Ou a Imprensa web matou o Léxico?

    Ou os guru brasileiros que oferecem cursos de SEO para jornalistas estão contribuindo com isso?

    Desculpe pela franqueza, mas “jornalista web seo” não é jornalista, é jornaleiro web. Tem o objetivo de
    vender..”simples assim..”

    Os mesmos gurus que falam de conteúdo relevante e textos de qualidade….. ahhhhh qualidade, qualidade num dicionário do google keyword tool?

    ah sim, claro, nível intelectual??? intelectual…..
    (mais um uma palavra intelectual para ranquear)…intelectual…intelectual

    agora foi! vai ranquear!

    • Cintya October 10, 2011 at 10:38 am #

      Oi Leandro, as estratégias de SEO são super importantes. Isso não dá para negar. Mas não podemos perder de vista que isto é uma ferramenta que atende a uma necessidade específica. O problema acho que não está nela em si, mas na maneira como a usamos. Se o universo online “cai” num cesto raso inevitalmente as ferramentas que o acompanham também correm este risco. Aqui neste espaço por exemplo você vai achar muita gente de SEO que leva a sério isso. Mas enfim, garantir este crivo nem sempre é fácil. Obrigada pela leitura e discussão! Abraços, Cintya

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